Adolescência e síndrome de Down

A adolescência é uma fase de passagem, de grandes mudanças, de insegurança, de alternância entre sentimentos opostos nos quais o equilíbrio resulta muito frágil. Este é um período no qual já não se é mais criança, mas ainda não se é adulto; quando o universo pessoal se amplia; quando se está em busca da própria identidade e ocorre um crescente distanciamento da família na procura cada vez maior de autonomia; é quando a pessoa se testa a si mesma para conhecer seus próprios limites e, principalmente, sua capacidade de superá-los; é quando se torna mais importante a aprovação social; é o tempo em que se começa a pensar em um futuro possível.

Ser reconhecido e aceito pelo outro são fatores que incidem sobremaneira sobre a autoestima na adolescência.

1. A autonomia

Assim como os outros de sua idade, também o adolescente com síndrome de Down começa a ter necessidade de maior autonomia. Ele sente o desejo de obter mais confiança por parte das outras pessoas, a necessidade de testar a própria capacidade de conhecer-se melhor, precisa saber até onde pode contar consigo mesmo em um mundo que teme mas que ao mesmo tempo quer enfrentar. Com frequência o adulto, ante suas reivindicações é tomado de temores pela possível incapacidade do jovem com SD e seu presumível sofrimento com frustrações. O adulto tende a intervir a todo instante, privando-o assim do direito de afirmar-se como indivíduo. O jovem é então sujeito a um controle excessivo que exigirá dele um esforço muito maior para demonstrar sua capacidade e enfrentar seus limites pessoais.

Para melhorar sua qualidade de vida, faz-se necessário substituir a mensagem “você é uma criança, não é capaz, deixe que eu faça por você”, por “ mostre que você pode fazer sozinho. Prove sua capacidade”. Um apoio que se lhe pode oferecer é ajudá-lo a encontrar outras maneiras de expressar-se plenamente.

Alguns jovens, ao se sentirem reprimidos em sua liberdade de crescer, podem assumir atitudes agressivas, depressivas, apáticas, ou podem se fechar em si mesmos. Aqui entra em jogo a habilidade do adulto para “ler” esses comportamentos, de saber individualizar os “nãos”, ciente do que neles está implícito, para poder atender às reais necessidades e expectativas dos adolescentes.

O jovem com SD, como qualquer outro, quer sair sozinho, vestir-se segundo seu próprio gosto, acompanhar a moda jovem, decidir sobre o que o agrada e o que não o agrada.

2. A identidade

O adolescente está à procura da própria identidade, e nesse período deverá dar-se conta, cada vez mais conscientemente, de que tem a síndrome de Down; deverá saber plenamente que tal condição é parte de sua verdadeira identidade; deverá conhecer as dificuldades que lhe são próprias e os recursos de que poderá dispor para superá-las. A busca de identidade na adolescência é um processo subjetivo por que passam todos os indivíduos do mundo.

Com suas perguntas, o jovem com síndrome de Down busca respostas precisas, que frequentemente lhe são dadas em meias palavras, gerando um sentimento de angústia e levando-o a fazer mais perguntas. Quanto mais ele se sentir aceito como é, mais ele se aceitará. Mas as expectativas de alguns pais ameaçam sufocar a verdadeira identidade do jovem, que então se esconderá por trás de uma máscara, por trás daquilo que os adultos queriam que ele fosse, por trás de um falso “eu” que poderá levá-lo a um sentimento de falta de aceitação e o impedirá de aceitar-se como de fato é. A ansiedade e o temor relativos ao futuro só podem ser administrados quando se possui um conhecimento verdadeiro de si.

3. Os jovens da mesma faixa etária

Os jovens da mesma faixa etária, seus pares, levam-no a um confronto contínuo, a um impulso em direção a novas possibilidades, impulso esse não desprovido de sofrimento, mas necessário para uma real integração ao mundo em que vive. As necessidades e as emoções próprias deste período são comuns a todos, mas é o modo de manifestá-las que frequentemente difere. Cabe ao adulto facilitar tal expressão.

Os jovens, de um modo geral, são levados por emoções próprias da idade e desprezam aqueles que consideram “mais fracos”, sem se darem conta de que aquele que está perto deles escuta as mesmas músicas, gosta do mesmo estilo de roupas, olha com o mesmo interesse para as mesmas meninas ou rapazes, sente os mesmos temores, sofrimentos e alegrias típicas do período da adolescência.

4. Afetividade e sexualidade

O amor que anteriormente se concentrava nos pais passa agora a se dirigir também a outros. A afetividade se volta para seus coetâneos, para o grupo, para o amigo. O jovem é lançado em direção a um renascimento social muito sonhado, desejado e sofrido que ele quer viver plenamente. Juntamente com a necessidade de relações afetivas significativas (pais, outros adultos de referência, coetâneos), ocorre um aumento pulsional que com frequência deixa os pais sem saberem o que fazer, que os leva a considerar os próprios filhos ainda crianças e, em consequência, a postergar a questão afetiva e sexual o máximo possível.

A questão da vida sexual do filho com SD é tratada com silêncio, ou tem sua abordagem adiada, porque enfrentá-la significa dar ao filho um status de adulto e implica pôr em discussão um equilíbrio familiar conquistado com esforço. Nesse período nos vemos diante de uma explosão da sexualidade manifestada em abraços, e outros contatos físicos acompanhados, com frequência, de uma incapacidade de controlar o corpo que cresce.

O corpo do adolescente foge ao controle e provoca tensões. Podemos falar de uma acentuada “genitalidade” que não requer necessariamente a presença de outro (masturbação). Encarar a sexualidade em sua completude, como relação afetiva e física torna-se mais difícil. Os adultos são tomados de uma nova ansiedade, acompanhada, frequentemente, do receio de que a sexualidade do jovem com SD possa se manifestar subitamente, sem suficiente controle da inteligência.

Como quaisquer outros jovens, o adolescente com SD pode vir a fazer uma infinidade de coisas impensadas, mas pode também entrar neste campo com naturalidade. Muitas das vezes a abordagem da questão da sexualidade é mais problemática para o próprio adulto responsável, que tem dificuldades pessoais e temores no que se refere a sexo. As pessoas da família adotam soluções diversas, segundo sua própria atitude em relação à sexualidade.

Dado que os adolescentes em geral têm necessidades semelhantes e são capazes de viver em sociedade, devemos esperar que o comportamento do jovem com SD esteja de acordo com a própria idade, e não permitir atitudes infantis, como beijar e abraçar estranhos, atitudes essas que podem ser mal recebidas. Educar a sexualidade significa educar a razão, ensinar a compreender as mensagens de nosso corpo e as dos outros, superando o conceito de normalidade, atentando para a pluralidade física, psicológica e intelectiva dos indivíduos. É necessário educar o adolescente com SD para que ele saiba expressar seu afeto com dignidade e respeito, e para que esteja atento ao momento oportuno de refutar e reagir a avanços indesejados.

 

(Fonte: Associazione Genitori e Persone com Síndrome di Down – agpd onlus www.sindromedidown.it – Traduzido por Maria Alice Máximo)